
À
procura da sua identidade sempre viveu o Fernando Pessoa. Procurou-a nos seus vários
eus, os heterónimos, é o seu «drama em gente». Agora essa identidade de novo
é procurada e encontrada, pela união com a pátria. Assim ela surge na Mensagem.
Uma das preocupações primeiras de Fernando Pessoa dizia respeito à
necessidade “sociológica” da criação de uma literatura nacional. Este dar
um rosto a um “supra-Portugal” estaria a cargo de um “supra-Camões”. Há
em Pessoa três crises simultâneas que coincidem com, e reforçam, a sua crise
de personalidade: a da sua integração no espaço cultural (e poético) português;
a da poesia portuguesa, presa do subjectivismo romântico; a da identidade
nacional, decorrente do Ultimatum inglês (justamente a língua que o formara) e
do clima de agitação social subsequente que desembocaria no 5 de Outubro de
1910. Pessoa nunca se serviu da poesia
camoniana como poesia intercessora da sua. O “Camões” de que anuncia a
próxima superação é apenas o símbolo de que necessitava para a si mesmo se
oferecer uma “pátria poética” e com ela um “amor pátrio”
correspondente à frustração de quem não tinha ainda, vistos de fora, nem uma
nem outro. Este seu ardente desejo de integração vai cristalizar-se na Mensagem
– este livro inscreve-se nas tendências do nacionalismo literário da época.
Pessoa chama a atenção para a particular “estrutura” do seu livro e para a
“disposição nele das matérias”, isto é, para o seu carácter emblemático.
Diz ele que a Mensagem mistura um
misticismo nacionalista e um sebastianismo racional. Mensagem
é um livro de busca redentora, que não se esgota no sebastianismo e muito
menos na mera exaltação pátria. É também de interrogação e de crítica do
nosso imobilismo fadista e do nosso conformismo saudosista (Triste de quem vive em casa/ Contente com o seu lar,/ Sem que um
sonho,...). Interpretação mítica e mística do destino português, Mensagem
é também a criação simbólica de uma subtil analogia entre aquele destino mítico
e o destino, não menos mítico, de quem se criou na imagem de um “supra-Camões”
projectado de uma “supra-pátria” a haver. Pátria que ele concluiria poder
ser apenas a língua portuguesa, e a língua portuguesa enquanto linguagem estética.
A Mensagem é também a criação
mitológica de uma pátria ideal de história e de linguagem, oposta ao país real
em que o autor vive. A poesia de Pessoa é a interminável edificação de uma Pátria-Nau
de Linguagem que realize as virtualidades de uma personalidade que é vários
nomes no nome-viagem chamado Fernando Pessoa. O sentido oculto da Mensagem
parece estar nas seguintes palavras do poeta: “E a nossa Raça partirá em
busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas
daquilo de que os sonhos são feitos.
E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o
obscuro e carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente. Mas o segredo da Busca é que não se acha. Aqui Fernando Pessoa assume
o que ele considerava o mais alto ministério do homem: ser criador de mitos; e,
assim, a Mensagem surge a um tempo
como mito e rito que conta a criação duma pátria. Poderá ser vista como uma
epopeia, porque parte dum núcleo histórico, mas a sua formulação, sendo simbólica
e mítica, do relato histórico, não possuirá a continuidade. Aqui, a acção
dos heróis só adquire pleno significado dentro duma referência mitológica.
Aqui serão só eleitos, terão só direito à imortalidade, aqueles homens e
feitos que manifestam em si esses mitos significativos.
Assim,
a estrutura da Mensagem, sendo a de um
mito, numa teoria cíclica, a das Idades, transfigura e repete a história duma
pátria como o mito dum nascimento, vida e morte dum mundo, dando-lhe uma forma
tripartida: Brasão,
Mar Português, O Encoberto. Poder-se-á traduzir como: os fundadores ou o
nascimento; a realização ou a vida; o fim das energias latentes ou a morte –
esta contém já a ressurreição, o novo ciclo que se anuncia, O Quinto Império.
Assim, a 3ª parte é toda ela um fim, uma desintegração, mas também toda ela
cheia de avisos, de forças latentes prestes a virem à luz. Os Descobrimentos
podem ser vistos em diversos planos ou registos da realidade, de significação
e Fernando Pessoa foi o primeiro da sua nação a vê-los como uma aventura
iniciática. E toda a Mensagem aparece
como o erguer poético duma intuição: a consciência duma realização
terrestre do transcendente, que será também a do próprio ser pessoal; a missão
humana é dever, realização anímica e revelação de Deus. O indivíduo,
salvando-se a si mesmo, é o meio pelo qual o eterno se revela no mundo do devir
(Deus é o agente./ O herói a si assiste,
vário/ E inconsciente.)
A obra surge assim como o dever, missão terrestre que, estando para além do homem, lhe concede por este caminho a sua verdadeira personalidade. Empossados duma missão que os ultrapassa, surgem sempre esses construtores e heróis da nação (Aqui ao leme sou mais do que eu:/ Sou um Povo que quer o mar que é teu.).