Fernando Pessoa... e Heterónimos!
Odes de Ricardo Reis
| Pesa o decreto atroz do fim certeiro. | Inglória é a vida, e inglório conhecê-la. |
| Pesa a sentença igual do juiz ignoto | Quantos, se pensam, não se reconhecem |
| Em cada cerviz néscio. É entrudo e riem. | Os que se conheceram! |
| Felizes, porque neles pensa e sente | A cada hora se muda não só a hora |
| A vida, que não eles! | Mas o que se crê nela, e a vida passa |
| Entre viver e ser. | |
| Se a ciência é vida, sábio é só o néscio. | |
| Quão pouca diferença a mente interna | Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa |
| Do homem da dos brutos! Sus! Deixai | Se é para nós que cessa. Aquele arbusto |
| Brincar os moribundos! | Fenece, e vai com ele |
| Parte da minha vida. | |
| De rosas, inda que de falsas teçam | Em tudo quanto olhei fiquei em parte. |
| Capelas veras. Breve e vão é o tempo | Com tudo quanto vi, se passa, passo, |
| Que lhes é dado, e por misericórdia | Nem distingue a memória |
| Breve nem vão sentido | Do que vi do que fui. |
| Nos altos ramos de árvores frondosas | Nem da erva humilde se o Destino esquece. |
| O vento faz um rumor frio e alto, | Saiba a lei o que vive. |
| Nesta floresta, em este som me perco | De sua natureza murcham rosas |
| E sozinho medito. | E prazeres se acabam. |
| Quem nos conhece amigo, tais quais fomos? | |
| Assim no mundo, acima do que sinto, | Nem nós os conhecemos. |
| Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma, | Nada é prémio: sucede o que acontece. |
| E nada tem sentido - nem a alma | Nada, Lídia, devemos |
| Com que penso sozinho. | Ao fado, senão tê-lo. |